317706 Noticias - O juramento de um profissional  -  Pedro Valls Feu Rosa




Categoria Opinião  Noticia Atualizada em   20/04/2015   às  08:01:19                   
O juramento de um profissional
Dia desses fui a uma formatura. Linda, a cena de cada novo profissional prometendo, de p e solenemente, ser um verdadeiro sacerdote ao longo da carreira.
O juramento de um profissional
Foto: Reproduo/Google
assim, quase sempre com o corao puro de uma criana, que comeamos as nossas caminhadas. E a comeam a chegar os primeiros clientes, segurando com as mos os seus problemas ou direitos doentes e raquticos.

Estes primeiros pacientes so afortunados! Com que carinho nos debruamos sobre os casos deles! Lemos e relemos cada documento, e pesamos criteriosamente todas as circunstncias a fim de que nosso diagnstico seja absolutamente preciso.

Nestes primeiros dias ns at recebemos as famlias dos nossos clientes, e pacientemente as ouvimos e at confortamos, se for o caso. Terminado o expediente dirio, deixamos nossos locais de trabalho com a alma leve de quem passou o dia a recitar uma linda orao.

Mas eis que os dias vo se passando, e o desfile das misrias humanas no diminui pelo contrrio s aumenta, juntamente com o nosso torpor. Decorridos alguns meses, a angstia do prximo passa a ser cada vez mais apenas uma rotina desconfortvel, desagradvel ao esprito e aos sentidos. Lentamente, sem que o percebamos, passamos a ser vtimas daquele que Ralph Waldo Emerson definiu como o pior veneno: o tempo!

assim que passamos a estudar cada caso com ateno cada vez menor, e quanto mais experientes mais delegamos tarefas a auxiliares que no tem experincia alguma, em uma total inverso de lgica. Atender familiares? Para que? Afinal, o passar dos anos transformou o ato de ouvir as expresses de ansiedade e angstia deles em uma mera perda de tempo ficamos importantes demais para isso.

Na maior parte das vezes, passamos a s nos dar ao trabalho de alguma pesquisa mais extensa quando nos deparamos com algum daqueles casos polmicos. Assim, quando se trata de impor um remdio amargo a algum importante, cercamo-nos de todas as precaues alis, no raramente pesquisamos tanto que acabamos encontrando uma maneira de resolver o problema sem ministrar remdio amargo algum.

J quanto aos miserveis, o tempo que dispensamos aos casos deles costuma ser inversamente proporcional durao de nossas carreiras. Assim, em seguida s expresses a situao conhecida, trata-se de um quadro comum ou mais um daqueles casos no raramente seguem-se remdios amargos, daqueles que causam dor e sofrimento durante anos a fio.

Encerrado o expediente, deixamos os nossos gabinetes e escritrios j no mais com aquela alma leve dos primeiros dias, mas com uma sensao estranha de alvio por estarmos saindo daquela passarela na qual desfilam as mais pungentes misrias humanas.

diante desta realidade que talvez fosse oportuno mudarmos nossos to solenes juramentos.

Que tal prometermos, simplesmente, em nossos coraes, sermos pessoas no s de bem, mas tambm do bem por toda a vida? Que tal nos comprometermos a receber e atender, ao longo de nossas carreiras, cada miservel, cada pessoa atormentada por problemas, que bater porta dos nossos gabinetes ou escritrios? Que tal, finalmente, jurar que tentaremos, pelos tortuosos caminhos da vida, reduzir ao mximo nossos momentos de Pilatos? Por favor, no juremos que no teremos deles a vida no nos permitir tamanho luxo! Mas que no sejam muitos, eis algo que humana e honestamente poderamos cobiar e prometer nestas noites de formatura.

Fonte: O Autor
 
Por:  Pedro Valls Feu Rosa    |      Imprimir